Saíram de Lisboa numa sexta feira à tarde, chuvosa, de grande desagrado perante a possibilidade de darem um mergulho na praia do Estoril, debaixo de um sol escaldante, de um mar de gente deitada em toalhas de muito colorido e bronze quanto bastasse para fazer novos sinos na igreja de S. António, ali perto, badalando a cada meia hora e, fizeram-no em jeito de despedida temporária, numa espécie de voltamos já... e, tu, mar mantém-te por aí, calmo, brando e azul, como de costume. Eram 4 da tarde, quando Pedro e Sofia apanharam o comboio em Santa Apolónia.
A principal estação de comboios de Lisboa, também ela vestida de azul, celeste, apresentava-se cheia. Havia um misto de gente que vivia nos subúrbios com passageiros emigrados e turistas desprevenidos, de mochila às costas. O acesso à gare não estava condicionado e isso acrescentava mais pessoas ainda, familiares e amigos em despedida.
O internacional saíra dez minutos depois da hora, e certamente acertaria o passo mais adiante. O regional estava ali, gingando para a frente e para trás, como se bailando convidasse os presentes a entrar, a seguir as suas vidas por ali, a caminho de locais que antes estiveram francamente povoados mas que agora negligenciam quem por lá ficou. O relógio marca horas certas e o intercidades parte religiosamente, sem reclamações. Boa viagem, liga quando chegares, são frases e pensamentos repetidos.
A viagem decorreu calmamente até Coimbra, com apenas duas paragens previamente programadas. Em Coimbra deteve-se um pouco mais do que aquilo que se pode pensar ser o habitual. Dava-se conta de que havia discussão lá mais para a frente.
Pedro parou a leitura e assomou à janela. Deixando os braços cruzados repousarem no peitoril, introduziu bem a cabeça no exterior e, para além de uns pingos fortes, apanhou com um bafo imenso de odor desagradável. Pôde avistar um fumo estranho que supôs libertado de uma bilha de alumínio ou algo parecido. Parecia um gás qualquer, um químico desagradável. Voltou a introduzir-se no comboio, informou Sofia do cheiro que sentiu e do fumo que viu e avisou que iria sair um pouco e verificar mais de perto o que se estava a passar. Ela levantou o olhar e sem deixar de mexer o lábios, denunciando o empenho que colocara na leitura. Movendo a cabeça para baixo mostrou indiferença. Não fosse um certo sorriso e teria preocupado Pedro, que entretanto desapareceu dali muito rapidamente.
Lá fora estavam cerca de cem pessoas olhando a bilha, redonda de, parecida com as de gás de trinta e picos quilos. O maquinista conversava com um policia e ambos pareciam estar a tramar alguma coisa. Pedro percebeu que aguardavam algo, talvez um reforço policial, pensou. Algumas pessoas comentavam tratar-se de uma bilha ali deixada ou tombada do comboio anterior que o chefe da estação disse tratar-se de mercadorias. Mas seria? perguntavam uns e outros. Um homem baixo, aparentando ter cerca de 40 anos, pese embora os poucos cabelos que ostentava na plataforma superior da cabeça, de óculos bem graduados, razoavelmente bem vestido dentro dos padrões espectáveis por quem utiliza um comboio internacional, que este não era, afirmava ter visto alguém colocar a bilha ali, naquele local. Jurava por tudo quanto lhe era mais sagrado, que o homem era grande e forte e usava uma camisa azul, cabelos pretos, um discrição, aliás, muito parca e vulgar, que não convencia quem o ouvia.
Por fim, chegou um contingente maior de policias e um deles com um fato branco, daqueles que usualmente se usam para proteger a pele de químicos indesejáveis transportou a bilha para um local descampado, mais à frente da gare e com acesso do exterior.
Passaram-se cerca de quinze minutos e o maquinista avisou que o comboio iria partir e todos voltaram para dentro. Pedro foi lesto mas, de facto, não conseguiu saber mais do que isso: alguém, um alguém qualquer tinha feito essa brincadeira, ou seria de propósito e com más intenções?. Mas, porquê ?
Quando chegou à cabine de 2ª classe onde Sofia e mais duas pessoas tinham permanecido, esta continuava lendo impávida e serenamente. As duas outras pessoas, duas mulheres de meia idade e porte deselegante continuavam falando baixinho, exibindo fotos eventualmente, tiradas durante o verão.
Agora, podia sentir-se humidade no ar, havia um novo viajante na cabine, molhado e de pés pesados e sapatos encharcados que deixavam um toque de grave acentuado no ar quase irrespirável de um dia de verão. A temperatura convidava à imobilidade. A humidade fazia agora companhia e o odor alterava-se, ao mesmo tempo que a curiosidade ainda por satisfazer era traduzida em olhares agressivos e os bocejos trocados por espirros fortes, alguns propositados. Percebendo este novo ambiente na cabine Pedro decidiu, ainda que temporariamente, ocupar um lugar no corredor, exactamente em frente da porta, de olho em Sofia. E, foi nessa altura que verificou que uma das ocupantes presentes fazia questão de mostrar bem um colar de ouro bem grosso e trabalhado, e verificou que ela brincava com o colar deixando-o passar pelos lábios e pelo peito introduzindo-o e retirando-o amiúdas vezes por entre o decote, manifesto, que um vestido curto de algodão decorado com flores rosa e verde pastel apresentava. Parecia quase uma provocação e, seguramente um descuido inapropriado no dias de hoje. Afinal agora estava ali mais um homem, molhado, estranho.
O comboio retomou a marcha ..
